Crônica do livro "O terceiro travesseiro", de Nelson Luiz de Carvalho
Num período
que eu mal entendia o que acontecia comigo, graças à história de Nelson Luiz de
Carvalho, pude me aceitar como um garoto que gostava de outros garotos. Pude me
entender melhor, sem me recriminar, me julgar, me condenar por isso. “O
terceiro travesseiro” me ajudou a tirar o preconceito de mim mesmo. Um ano
depois, esse livro meio que me tirou do armário. Ou tentou.
Quando
eu já não morava mais em Breves, passando uns dias em Belém, na casa dos meus
tios, onde minha mãe e minha irmã estavam morando, mamãe descobriu a obra em questão
em PDF e me cobrou explicações. Do lado de fora da casa, vendo a reação dela, um
pouco chateada e aborrecida, dei a entender que tudo não passava de uma fase; e
ela me pediu para excluir o arquivo, para variar.
Mais
tarde, já morando no nosso apartamento em Belém, consegui comprar, depois de
muito procurar, “O terceiro travesseiro” e “Apartamento 41”, também de Carvalho.
Numa época em que eu ainda não havia contado aos meus novos amigos/vizinhos (há
quase ninguém, na verdade), dois deles, os irmãos Thales e Thiago, olhavam livro,
na estante do meu quarto.
- Do
que fala esse aqui? – perguntou Thales, segurando “O terceiro travesseiro”.
Travei, mas expliquei o conteúdo, receoso.
- E
esse? – Thiago se referia ao outro livro. Pronto. Era só esperar e eles logo
sairiam do quarto ao perceberem que eu era gay. Porém, eles ficaram;
deitaram-se ao meu lado na cama e continuaram conversando sobre outros aleatórios,
como se nada mais natural tivesse acontecido.
-
Ué... Vocês... Tá tudo bem pra vocês? – perguntei, sem entender a reação deles.
- Por
quê? O que é que tem? – Thales parecia confuso. Foi aí que falei mais sobre
mim.
– Tu
deverias ter contado pra gente. Nunca que mudaríamos contigo. – disse Thiago.
Hoje
em dia, sou amigo da família toda e os filhos de Thales, Max Luís e Maria
Luísa, são duas grandes paixões da vida do tio Vitu.
Organizando a minha estante, mamãe descobriu os dois livros e se lembrou de “O terceiro travesseiro”. “Não gosto de ver esses livros na tua estante”, reclamou mais de uma vez. Fiquei tão desconfortável que os vendi, para ela não ficar chateada.
Tantas
outras situações chatas em casa duraram por mais uns anos, até mamãe adoecer
com depressão e, ao se curar, ver a vida de outra forma: zerou o preconceito
comigo e até me cobra para apresentar um namorado. E ela, como era de se
esperar, disse que não se lembrava de tudo isso quando me perguntou qual livro
eu havia comprado pela Amazon.
Reler
“O terceiro travesseiro”, depois de anos, principalmente agora com novos
capítulos, me trouxe um olhar mais reflexivo, nostálgico e alguns grandes
gatilhos. A história que deu base ao livro ocorreu nos anos 90 e o livro foi publicado
em 1998; se hoje há preconceito com o relacionamento entre pessoas do mesmo
sexo, naquela época tudo era ainda maior e mais delicado.
“Fiquei pensando se eu era um cara considerado normal, não pelo fato de transar com um cara, mas pelas loucuras que fazíamos. O que será que duas pessoas fazem numa relação considerada normal?”, um dos trechos do livro. Hoje, há múltiplas formas de se viver, se viver um relacionamento, de como se identificar (ou não) como indivíduo. Acredito que hoje em dia considerar-se uma pessoa anormal por gostar de pessoas do mesmo sexo não seja tão comum quanto a preocupação com a reação dos outros, sobretudo dos familiares.
Em “O
terceiro travesseiro”, Ana, a mãe do protagonista Marcus o levou ao encontro do
padre Antônio, pois o fato de ele gostar de garotos “era um desvio de moral e
só acontecia” porque ele estava muito “distante de Deus”. O diálogo entre eles
mostra como a religião era tida como algo determinante no que se refere à orientação
sexual naquela época, ainda mais do que é hoje. “Sabe, Marcos, isso que você
quer fazer não pertence ao plano de Deus. Deus com certeza não quer isso para o
homem”, disse o padre.
Enfim,
havia trechos que me fizeram lembrar exatamente a minha reação de quando li
pela primeira vez. A releitura trouxe uma sensação estranha, e ao mesmo tempo
boa: de um Victor jovem, um tanto ingênuo, ainda se conhecendo, em choque com o
que lia (“Dois garotos ficaram juntos! Uau! Isso aconteceu e pode acontecer? Alguém
escreveu e publicou e não houve problema? Então isso não é errado...”); e hoje,
um Victor tranquilo, de certa forma, porque o pior já passou. E ainda bem que
eu tive uma companhia nesse período. Talvez por isso tudo esse seja o livro mais importante pra mim.
Obrigado,
Nelson Luiz de Carvalho.



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