Crônica do livro "O terceiro travesseiro", de Nelson Luiz de Carvalho


Conheci o livro “O terceiro travesseiro”, de Nelson Luiz de Carvalho, entre meus 15/16 anos, por meio de um colega de turma no ensino médio, em Breves, no Marajó. Ele e as nossas amigas garantiram que eu me emocionaria bastante; e estavam certos – naquela época eu chorava facilmente. Li em dois dias. Chorei horrores com as cenas finais dos protagonistas Marcus e Renato, melhores amigos que se apaixonam um pelo outro.

Num período que eu mal entendia o que acontecia comigo, graças à história de Nelson Luiz de Carvalho, pude me aceitar como um garoto que gostava de outros garotos. Pude me entender melhor, sem me recriminar, me julgar, me condenar por isso. “O terceiro travesseiro” me ajudou a tirar o preconceito de mim mesmo. Um ano depois, esse livro meio que me tirou do armário. Ou tentou.

Quando eu já não morava mais em Breves, passando uns dias em Belém, na casa dos meus tios, onde minha mãe e minha irmã estavam morando, mamãe descobriu a obra em questão em PDF e me cobrou explicações. Do lado de fora da casa, vendo a reação dela, um pouco chateada e aborrecida, dei a entender que tudo não passava de uma fase; e ela me pediu para excluir o arquivo, para variar.

Mais tarde, já morando no nosso apartamento em Belém, consegui comprar, depois de muito procurar, “O terceiro travesseiro” e “Apartamento 41”, também de Carvalho. Numa época em que eu ainda não havia contado aos meus novos amigos/vizinhos (há quase ninguém, na verdade), dois deles, os irmãos Thales e Thiago, olhavam livro, na estante do meu quarto.

- Do que fala esse aqui? – perguntou Thales, segurando “O terceiro travesseiro”. Travei, mas expliquei o conteúdo, receoso.

- E esse? – Thiago se referia ao outro livro. Pronto. Era só esperar e eles logo sairiam do quarto ao perceberem que eu era gay. Porém, eles ficaram; deitaram-se ao meu lado na cama e continuaram conversando sobre outros aleatórios, como se nada mais natural tivesse acontecido.

- Ué... Vocês... Tá tudo bem pra vocês? – perguntei, sem entender a reação deles.

- Por quê? O que é que tem? – Thales parecia confuso. Foi aí que falei mais sobre mim.

– Tu deverias ter contado pra gente. Nunca que mudaríamos contigo. – disse Thiago.

Hoje em dia, sou amigo da família toda e os filhos de Thales, Max Luís e Maria Luísa, são duas grandes paixões da vida do tio Vitu.

 

Organizando a minha estante, mamãe descobriu os dois livros e se lembrou de “O terceiro travesseiro”. “Não gosto de ver esses livros na tua estante”, reclamou mais de uma vez. Fiquei tão desconfortável que os vendi, para ela não ficar chateada.

Tantas outras situações chatas em casa duraram por mais uns anos, até mamãe adoecer com depressão e, ao se curar, ver a vida de outra forma: zerou o preconceito comigo e até me cobra para apresentar um namorado. E ela, como era de se esperar, disse que não se lembrava de tudo isso quando me perguntou qual livro eu havia comprado pela Amazon.

Reler “O terceiro travesseiro”, depois de anos, principalmente agora com novos capítulos, me trouxe um olhar mais reflexivo, nostálgico e alguns grandes gatilhos. A história que deu base ao livro ocorreu nos anos 90 e o livro foi publicado em 1998; se hoje há preconceito com o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo, naquela época tudo era ainda maior e mais delicado.

“Fiquei pensando se eu era um cara considerado normal, não pelo fato de transar com um cara, mas pelas loucuras que fazíamos. O que será que duas pessoas fazem numa relação considerada normal?”, um dos trechos do livro. Hoje, há múltiplas formas de se viver, se viver um relacionamento, de como se identificar (ou não) como indivíduo. Acredito que hoje em dia considerar-se uma pessoa anormal por gostar de pessoas do mesmo sexo não seja tão comum quanto a preocupação com a reação dos outros, sobretudo dos familiares. 

Em “O terceiro travesseiro”, Ana, a mãe do protagonista Marcus o levou ao encontro do padre Antônio, pois o fato de ele gostar de garotos “era um desvio de moral e só acontecia” porque ele estava muito “distante de Deus”. O diálogo entre eles mostra como a religião era tida como algo determinante no que se refere à orientação sexual naquela época, ainda mais do que é hoje. “Sabe, Marcos, isso que você quer fazer não pertence ao plano de Deus. Deus com certeza não quer isso para o homem”, disse o padre.

Enfim, havia trechos que me fizeram lembrar exatamente a minha reação de quando li pela primeira vez. A releitura trouxe uma sensação estranha, e ao mesmo tempo boa: de um Victor jovem, um tanto ingênuo, ainda se conhecendo, em choque com o que lia (“Dois garotos ficaram juntos! Uau! Isso aconteceu e pode acontecer? Alguém escreveu e publicou e não houve problema? Então isso não é errado...”); e hoje, um Victor tranquilo, de certa forma, porque o pior já passou. E ainda bem que eu tive uma companhia nesse período. Talvez por isso tudo esse seja o livro mais importante pra mim. 

Obrigado, Nelson Luiz de Carvalho.

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