Crônica: qual o meu sonho? (2)

 Uma das minhas últimas postagens foi sobre meus sonhos. De junho até agora, já realizei três, ou quase isso.


No fim de junho, um dos meus melhores amigos veio, enfim, conhecer o Pará – veio por Belém e até por Breves. Deve ser estranho falar que um melhor amigo não conhecia a cidade onde moro/morei, né? Acontece que nós nos conhecemos por meio da internet, entre 2004/2005, quando eu estava em Breves; e ele, Humberto Filho, o Betinho, em Patos, na Paraíba.

Quatro anos depois, eu já em Belém, conheci-o pessoalmente, numa excursão pelo Nordeste; porém, somente dez anos depois pude, de fato, conviver com Betinho e sua família, passando dez dias de janeiro em João Pessoa. Foi a melhor viagem de todas. Por isso, meu “sonho” era que ele viesse a Belém para que eu o proporcionasse uma viagem tão boa quanto a que eu tive em Jampa.

Trabalhando em Brasília, Betinho foi convocado a representar o Ministério em Breves – que ironia! - e em Acará. Ficou em Belém por cinco dias apenas, mas pôde experimentar tacacá, vatapá, charque/peixe frito com açaí, sorvete de cupuaçu da Cairu e da Ice Boce, um rolê no Mangal das Garças, no Ver-o-peso, na Estação das Docas, no Mercado de São Brás, no Espaço Cultural Apoena e no Manga Jambu, sem contar que conheceu muito do nosso brega paraense e um dos meus melhores amigos daqui, o Léo. Além disso, mamãe e Ivna o fizeram se sentir ainda mais em casa – nem foi difícil, pois as duas amaram a companhia dele.

Assim percebi o quão é ruim ter um melhor amigo e não conviver com ele, embora seja natural nesse caso, pois a nossa amizade começou assim, à distância. Essas viagens fizeram com que nos tornássemos, realmente, família um do outro, solidificando a amizade, de melhor amigo e de irmão; no entanto, ficou claro que além de bonita, diferente, essa amizade tem um lado um pouco triste pra mim: não ter a convivência. E eu sinto falta dela diariamente. “Betinho é o teu amigo que mais tem a nossa vibe, a tua vibe; é o teu amigo que mais se parece contigo”, observou Ivna. Eu tento não pensar muito nisso. É melhor.

 

“O meu sonho é conhecer a calçada do Clube da Esquina. Eu sei que parece ser só uma calçada, mas é meu sonho. Deixa eu contar o que é o Clube da Esquina...”, e mamãe começa narrar de modo quase resumido, a qualquer pessoa que dê oportunidade, a trajetória de um grupo de jovens músicos de Minas Gerais, liderado por Milton Nascimento. Tais artistas são responsáveis por grandes sucessos da nossa MPB, como “Nada será como antes”, “Um girassol da cor do seu cabelo”, “O trem azul”, “Clube da Esquina n° 2”, “Paisagem na janela” (a minha favorita”), entre outras.

A grana caiu na conta; logo, Zeneide pôde organizar uma excursão em que Minas Gerais era o destino principal. Aliás, Ivna também realizou um sonho: pisou em solo argentino, em Puerto Iguazú (ficamos encantados de tão lindo que é) – ficou ainda mais na vontade de conhecer a Argentina; reencontramos, no Espírito Santo, a amiga de adolescência de mamãe cujo nome peculiar, em forma de homenagem, é o mesmo que o da minha irmã – o mais engraçado é que as duas Ivnas têm o mesmo jeito despojado, meio molecas, que julga os outros... Mais uma vez, o ruim é não ter a convivência.

Em Belo Horizonte, o medo era de mamãe passar mal, de tão feliz e ansiosa que estava. Zeneide parecia uma criança: estava animada, sorridente, ao chegar na famosa calçada do Clube da Esquina. Ela é toda branca, com caricaturas de todos os músicos que participaram do movimento, com uma placa no poste e até no chão havia homenagem. Mamãe ria, tapava o rosto, chorava, ria de novo, agradecia... Visitamos o Museu do Clube da Esquina, que ficava dentro do bar; reencontrei Yasmin Uchôa, minha amiga da época da Unama... Brindamos, cantamos, conversamos, fizemos fotos, mas a melhor parte foi a ver a mamãe feliz e realizada.

 

Pra terminar, o que ainda tá na metade: voltei para a sala de aula. Estou atuando como professor no Sesc Doca, aos sábados, no turno da manhã e da tarde, no curso Produção Textual: Escrita Criativa e Redação Estilo ENEM. Isabel Mota, de quem eu já revisava textos, me deu essa oportunidade como um convite, para lecionar no Sesc. De um modo geral, facilitou toda a minha entrada, apesar das minhas dificuldades de horário - o curso vai até o fim de outubro, antes da prova do ENEM.

Assim que voltei da excursão, sem de fato acreditar que daria certo, me tonei professor novamente. Iniciei a segunda quinzena de julho com uma turma composta por jovens entre 16 e 20 anos, com algumas mulheres mais velhas; ao começar agosto, veio a turma da tarde, com um pouco mais de alunos, na mesma faixa etária. Uma vez que o foco principal era o ENEM, a maioria dos discentes estava afiada, com muita participação em sala e perguntas pertinentes. Um exemplo disso foi um estudante ter feito uma pergunta muito específica sobre verbo. Foi uma semana estudando para proporcionar uma aula decente, porque, oh assuntozinho complicado...

Estou me sentindo vivo de novo; no sentido profissional, não me sentia assim desde que estava na Esamaztec. Não é de todo ruim trabalhar como revisor de texto no Equipe, porém seria muita falsidade dizer que sou feliz nessa função - mas tô bem. Voltar a ser professor, e com tantos desafios (nunca lecionei Redação estilo ENEM), além de um bom valor por hora/aula, me trouxe de volta à Terra, à realidade, à vida. Foram, digamos, três realizações seguidas. Apesar do cansaço, ainda me sinto energizado, com bastante vigor. Tô assim desde junho; deu pra entender o porquê, né?

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